Professor Felipe Pena remonta trajetória do empresário Adolpho Bloch em livro que valoriza todas as versões sobre o biografado
Por Juliana Sampaio e Priscilla Hoelz
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| Felipe Pena. Foto: Priscilla Hoelz |
Felipe Pena criou uma nova forma de pensar e realizar biografias e escolheu Adolpho Bloch, criador do conglomerado de comunicação Bloch Editores, um dos mais importantes da imprensa brasileira, para a primeira aplicação do método. Em 2010, foi lançado o livro "Seu Adolpho: uma Biografia em Fractais de Adolpho Bloch, Fundador da Revista e da TV Manchete", em que Pena reúne diversas histórias sobre a vida do empresário em diferentes perspectivas.
No livro, o autor não tenta traçar um perfil fechado sobre a personalidade de Adolpho Bloch, mas apresentar a ambiguidade do ser humano através do testemunho de quem conviveu direta e indiretamente com o criador do grupo Manchete. Com a aplicação da “Teoria da biografia sem fim”, o autor conta todas as versões de uma passagem da vida do biografado, sem tentar definir a mais fiel à realidade.
Além disso, quem tiver outras histórias sobre Adolpho Bloch ou outros pontos de vista em relação a algumas passagens do livro pode entrar em contato com Pena para que essas versões sejam incluídas em uma próxima edição do livro. “Seu Adolpho” foi finalista do prêmio Jabuti na categoria Biografia.
Professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e ex-repórter da Rede Manchete, Felipe Pena não chegou a conhecer o biografado, mas se encantou com as várias facetas do empresário ao comparecer ao velório de Bloch na sede do grupo, no Rio de Janeiro.
Adolpho Bloch, imigrante ucraniano, faleceu em 1995. Depois de atravessar um longo período de crises financeiras, a TV Manchete foi vendida em 1999 para o Grupo TeleTV, dando origem a atual RedeTV.
Em entrevista ao Comuffaz, o professor Felipe Pena aborda o conceito da “Teoria da biografia sem fim” e o processo de produção do livro “Seu Adolpho”, dentre outros temas.
Comuffaz: “Seu Adolpho” não é uma biografia convencional, fechada. Como foi o processo de produção do livro?
Felipe Pena: O livro é uma aplicação da metodologia que eu defendi como tese de doutorado, que se chama “Teoria da biografia sem fim” e está publicado com esse nome pela editora Mauad. Essa é a parte teórica da minha tese de doutorado. Queria estudar o discurso biográfico sem ficar preso àquele discurso totalitário, que é o discurso das biografias tradicionais, com começo, meio e fim, causa e consequência, como se a vida pudesse ser assim. A vida não é essa coisa coerente, em que tudo começa e tem causa e consequência. Eu fico muito incomodado quando alguns autores diziam que sabiam mais da vida do biografado do que o próprio biografado, que a vida do sujeito estava ali ou inscrita naquela obra. Isso não é verdade. Eu queria criar um método que pudesse contemplar essa estrutura não-totalizante, ou seja, essa nossa incapacidade humana de transformar qualquer coisa em algo total. Então utilizei a matemática fractal e a “Teoria do caos” como base teórica para criar a “Teoria da biografia sem fim”. O “Seu Adolpho” é uma aplicação dessa teoria e, assim, empiricamente, uma maneira de comprovar que ela pode ser aplicada ao discurso biográfico.
Comuffaz: você foi repórter da TV Manchete, mas não chegou a conhecer Adolpho Bloch. O que o motivou a escrever o livro?
Felipe Pena: Eu vi o Adolpho uma vez, no caixão. Foi a única vez, e ver é modo de dizer, porque o caixão estava fechado. O velório foi no saguão da Manchete, e foi o velório mais incomum do qual eu já participei. É claro que havia pessoas chorando, família triste, mas cada pessoa que chegava tinha 10, 20 histórias para contar sobre o seu Adolpho. Comecei a ouvir aquelas histórias e a colecionar. No próprio dia do velório, eu já sentei no computador e escrevi as histórias que ouvia. Depois fui entrevistando as pessoas no tempo em que eu fui repórter lá. Colecionei essas histórias e apliquei à teoria. Foi a diversidade de histórias que o seu Adolpho tinha para contar que me motivou. Pelo meu método, se você tem uma história para contar e outra pessoa tem a mesma história com uma versão diferente, dou as duas histórias e só cito a fonte. Não tenho preocupações em apurar o que é “Verdade”, até porque eu não sei o que significa essa “Verdade”. Eu sei que só existem versões. Então eu divulgo as duas versões e dou os devidos créditos. Há pessoas que acham que podem dizer a “Verdade”, que são donas dessa “Verdade”. Eu avalio que não. Sempre relativizo, pois acho que não existe essa suposta “Verdade”. Existe uma versão de um fato e eu tenho que contemplar isso.
Comuffaz: mesmo com as diferentes versões das histórias, você já abriu um convite nos primeiros capítulos do livro pedindo para as pessoas enviarem outras histórias ou outras versões de uma mesma história. Você tem recebido esses relatos? Há uma previsão sobre o lançamento de uma segunda edição ampliada e revista?
Felipe Pena: Elas (as histórias) sempre chegam. Guardo uma coleção para publicar mais três edições, mas como tenho feito outras coisas, lançado romances, não tenho conseguido tempo para fazer isso. As pessoas mandaram diversas histórias, refutaram outras. Isso é muito interessante porque é isso que a gente tem que fazer: tentar não ser totalitário e contemplar essas histórias. Então elas nunca vão ter fim. Se eu morrer, você ou outra pessoa interessada pode fazer. E esse processo nunca acaba; a segunda edição vai ser diferente da primeira, a terceira diferente da segunda, a milionésima diferente da 15ª e assim por diante. As histórias estão chegando e vamos ver se um dia eu faço uma segunda edição.
Comuffaz: você tem alguma história favorita?
Felipe Pena: Não tenho nenhuma favorita. Todas as histórias tratam do ser humano Adolpho, que era bom e mau, tinha seus altos e baixos como todo mundo. Há pessoas que gostam de santificar outras e se autossantificam ou se automartirizam, mas todo mundo tem qualidades e defeitos, e é preciso tentar contemplar as qualidades e os defeitos das pessoas. O Adolpho era um cara capaz de coisas altamente prejudiciais a um grupo de pessoas como não pagar fundo de garantia para os seus funcionários. Eu sou um dos que nunca recebeu nada da Manchete. Ele não depositava o fundo de garantia, você sabe o que é isso? No entanto, nunca entrei na justiça para cobrar, porque a Manchete me deu muito mais do que eu merecia. Achei injusto cobrar financeiramente por isso, apesar de achar que as pessoas têm que entrar na justiça mesmo, cobrar e fazer valer os seus direitos. Muito mais do que a questão financeira, a empresa me deu amigos, história de vida, histórias para contar. A Manchete me deu a base da profissão. Ele era um cara que fazia isso: não pagava fundo de garantia e, ao mesmo tempo, gastava milhares de dólares para, durante a Ditadura Militar, mandar filhos de seus funcionários envolvidos com a esquerda para fora do país e fugir da repressão. Então, às vezes, uma pessoa diz para você: “Fulano é um cara muito mau, é o diabo” e, na verdade, ele tem atitudes de anjo. Ele pode ser as duas coisas, ou seja, ter atitudes ruins e atitudes boas. Assim é o ser humano; Ninguém é bom o tempo inteiro.
Comuffaz: A sua formação também contempla a Literatura. Dos seus 11 livros, três são romances. Você acredita que a Literatura vem para ajudar o jornalista?
Felipe Pena: Acredito sim. Mais do que isso, às vezes, a gente tem uma visão limitada dentro de uma Faculdade de Jornalismo ao pensar que o único mercado de trabalho são as redações e as assessorias de imprensa. Na verdade, a formação pode contemplar outras coisas: a Literatura, as assessorias – não de imprensa, mas de comunicação –, as estratégias de comunicação, os novos produtos midiáticos, aproveitando as novas tecnologias, que incluem o audiovisual. Nesse sentido, a Literatura dá uma força de poder subverter o discurso ao contrário de outras disciplinas. Recomendaria ao máximo a criação de mais cadeiras de Literatura. O problema é que sou voto vencido, mas gostaria muito que houvesse mais Literatura, mais Psicologia, que também faz parte da minha formação. Não é que não tenha que existir redação jornalística, telejornalismo. Tem que ter tudo isso. Mas são necessárias outras disciplinas que contemplem essas mudanças estruturais. Você não se informa mais pelo jornal impresso. O discurso desse jornal impresso vai mudar. Não vai ser muito mais interessante ler um jornal que chega à sua casa já atrasado, porque você já se informou pela internet. A abordagem das matérias precisa ser diferente, contextualizada. Não seria interessante incorporar, por exemplo, estratégias do jornalismo literário? Acho que será mais prazeroso para o leitor. As empresas vão perceber isso. Esse é só um dos caminhos, que são multifacetados. Tomara que a gente consiga contemplar isso no curso.

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