quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A ética no jornalismo participativo

Autor de monografia sobre a atividade jornalística em tempos de internet, Iury Tavares aborda dificuldade de exercer pensamento crítico no dia a dia do trabalho em redação  

Por Rafaella Barros


Iury Tavares - Crédito: divulgação
Iury Tavares, ex-aluno de Jornalismo da UFF, defende a reflexão crítica sobre a prática profissional, mas acredita ser difícil levar alguns questionamentos para além dos muros da universidade. Formado em dezembro de 2009,  ele abordou em seu trabalho de conclusão do curso o jornalismo participativo. Como recorte metodológico, Iury utilizou os espaços “Eu-repórter” e “Dois Gritando” do jornal O Globo. O trabalho foi orientado pela professora Sylvia Moretzsohn, cujas aulas de ética despertaram o interesse de Iury para escrever sobre o assunto.

“A Sylvia já tratava na aula sobre o jornalismo participativo e escreveu até um artigo que na época chamou muito a minha atenção. Eu sempre participei muito das aulas de ética e decidi aprofundar a questão e tratar o caso do Infoglobo que, na época, começava a trabalhar o jornalismo participativo em duas campanhas publicitárias massivas em TV, jornal e internet”.

O artigo ao qual Iury se refere intitula-se “O mito libertário do ‘jornalismo cidadão’”, publicado por Moretzsohn em 2006. No trabalho, a professora aborda as questões que envolvem o jornalismo no contexto das novas tecnologias. 

A partir dos diálogos com a professora, o ex-aluno analisou o jornalismo participativo nas duas seções do jornal carioca levantando vários questionamentos, entre eles a apuração, a credibilidade da matéria e o próprio esvaziamento da profissão dos jornalistas, que se vêem substituídos pelos “cidadãos comuns”. Iury disse que o propósito era entender como esse tipo de jornalismo estava nascendo naquele meio de comunicação.

“Naquele momento era o veículo no Brasil que apostava forte na convergência entre impresso e virtual. O jornal experimentou usar a internet, a participação popular de outra forma que não fosse simplesmente escrever um comentário embaixo da notícia”, afirma o jornalista.

Dilema profissional

No desenvolvimento do trabalho, que durou dois meses, o então graduando teve dificuldades para encontrar a bibliografia que lhe serviria de base, problema enfrentado por muitos alunos que optam por um tema relativamente novo no meio acadêmico. “São poucos pesquisadores que pararam para pensar o assunto. Isso acontece também porque o jornalismo participativo é recente, ainda mais no Brasil”, analisa. 

Iury trabalha atualmente como repórter da rádio Band News FM e, portanto, conhece bem a rotina de quem está dentro do mercado. O ex-aluno afirma que o questionamento ético sobre as práticas profissionais, que ele aprendeu na faculdade e abordou em sua monografia, permite-lhe entender a profissão. No entanto, isso não significa, segundo ele, que as mudanças sejam transpostas facilmente para o mercado por quem está no dia a dia da redação. 

“O jornalismo participativo mostra que a figura do jornalista é essencial. Informações vêm de qualquer lugar, numa velocidade mais rápida, mas o jornalista apura, atesta. Não acredito, porém, que as propostas da universidade possam ser transpostas para a prática diretamente. Confesso que provo desse veneno. Quem está na redação está imerso na prática e acaba por adormecer os questionamentos éticos”, conclui.

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